Belém

Sábado de manhã, ônibus de Jerusalém para Belém. Na estação, ao lado do destinos, indicação do checkpoint - 300. Sete shekels, muitos locais, poucos turistas.

Passamos pelo checkpoint sem parar. O muro tem vários metros de altura e arame farpado. Marquei Airbnb e combinei com a N., uma russa comunista casada com um palestiniano, à entrada da Basílica da Natividade. No ônibus, dizem-me que, até lá, a caminhada dura uns 25 minutos. Estou um pouco atrasada para isso. Um taxista diz que me deixa lá, mas, depois de eu entrar no táxi, sugere que lhe pague 150 shekels para, em meia hora, me levar a ver os graffiti de Banksy no muro, um campo de refugiados e a igreja. Digo que não, que quero ir para a igreja. Insiste e vai descendo o preço, estamos agora nos 100, mas eu continuo a querer só ir ter à igreja e ele ignora-me. À medida que o preço desce, eleva o tom. Começo a ficar irritada, impaciente, e a sentir-me pressionada, dou a conversa por encerrada ao mesmo tempo que ele, que faz o gesto para que eu saia do táxi. Faço-o e ainda o ouço em voz alta dizer que não quero saber do povo palestiniano, que só ajudo israelitas e que de certeza que andei de táxi em Jerusalém (zero).

Mais tarde, começo a contornar o muro, vendo os graffiti: Trump, Fora Temer, Free Palestine, Fuck Israel, etc, etc, etc, tudo às cores. Num beco onde o muro embate, e que me obriga a voltar para trás, conheço uma senhora que, ao ver-me a fotografar o muro, vem meter conversa. Mora e tem uma loja ali, um dia os israelitas, sem prévio aviso, lembraram-se e construíram-lhe o muro à porta. É o muro que se vê da casa e da loja, está literalmente cercada por betão e arame farpado. Fala-me da vida que ali leva – não pode sair de Belém quando quer, precisa de permissão, quase nunca dada, para entrar em território israelita, ir a Ramallah é um pesadelo porque passa por 2 ou 3 checkpoints, e os palestinianos são sempre os últimos a passar. Uma vez, tentou ir a um casamento em Ramallah, mas ficou cinco horas no checkpoint (fechado). Perdeu-o. O soldado israelita nem lhe explicou a razão, a fila entretanto formou quilómetros. Se for encontrada em território israelita sem permissão, pode escolher entre duas punições - multa de cinco mil dólares ou seis meses de cadeia. Acontece o mesmo a quem tem permissão para ir trabalhar a território israelita, o que inclui Jerusalém, e lá é encontrado fora do horário laboral. Os israelitas, claro está, andam por onde querem, não dão cavaco a ninguém, e o mesmo acontece com gente como eu.

Israel plantou-lhe o muro à porta, o que está dentro é Palestina, a terra é Palestina, mas é a Israel que paga um imposto semelhante ao nosso IMI. Também paga impostos à Palestina e claro que não pode votar em Israel, da mesma forma que, ao tentar sair, fica no fundo da linha, depois de israelitas e estrangeiros. Os palestinianos, na própria terra, são o fundo da casta, tratados como animais, desumanizados. Para irem para o estrangeiro, precisam de um convite da embaixada. A senhora raramente consegue visitar o pai, ficou do outro lado do muro imposto, a cinco minutos de distância a pé. É cristã e sente-se sozinha. Admira a comunidade muçulmana porque a acha muito unida, que os seus membros se ajudam uns aos outros. Não tem apoio da igreja nem político. Divide as pessoas entre judeus, muçulmanos e cristãos. Diz que há 24 anos eram 90% de cristãos, agora 10.

É bonita, tem maquilhagem, terá uns 40 e poucos anos, rugas à volta dos olhos, expressão consternada. Repete várias vezes que a vida não é fácil e diz que tenho sotaque de judeu.

Continuo a andar pelo muro à procura de um dos checkpoints de que fala, de que me diz ter segurança igual à de aeroportos. Creio tê-lo encontrado, mas está fechado (por ali ninguém entra, ninguém sai). O Laith, de uns 20 e muitos anos, 30 e poucos, mete conversa. Estrangeiros são potenciais clientes e aproveita para contar da Palestina. Diz que não consegue sair de Belém, que os soldados israelitas lhe entram em casa quando lhes apetece, que Israel faz de tudo para que não consigam viver. Os turistas vêm em ônibus israelitas e voltam no mesmo dia para Jerusalém, que tem de fazer o que dá para fazer tours ocasionais. Diz que me leva aos pontos A, B e C e me deixa na paragem para voltar para Jerusalém. Digo que vou ficar a dormir em Belém pelo menos duas noites e fica admirado. Mais admirado fica quando lhe digo que só durmo em terras palestinianas, que evito propositadamente Israel, que só como com palestinianos e não quero financiar um Estado que se ergueu a forjar a canalhice. Fica ainda mais espantado e agradece algumas vezes, agradece a ajuda ao povo palestiniano, diz que muitos estrangeiros nem sabem que a Palestina existe: thank you, thank you for helping the Palestinian people, many tourists don't even know that Palestine exists, they sleep in Jerusalem and come here with Israeli buses, see the church and go away. Ver turistas não é só ganhar dinheiro, é a possibilidade de, de alguma forma, combater a reclusão, contrariar a versão de Israel, o poder de Israel, contar a história da Palestina e a colonização de que é vítima.

Eu posso estar aqui, vir à terra deles, sacar do passaporte e ir embora. Eles são tratados como gado, menos do que humanos, controlados como gado, encatrafiados em cidades, tratados como criminosos. Estão na terra deles e têm menos direitos do que eu. O meu passaporte europeu, a minha pele branca, dinheiro no bolso, dois cartões multibanco e um de crédito, a possibilidade de andar livre, o direito a estar aqui e a sair, a voltar a um lugar a que chamo casa, ou a vários - Vizela, Lisboa, Guimarães -, não ter de lutar nem de dizer que para o ano é que vai ser, tudo tem a força de um tiro e a intensidade da resistência ao poder militar de Israel.

Vim este ano à Palestina, não sei se voltarei, mas ter um conflito à frente deixa-me logo comprometida, não se pode ser apolítico aqui, a terra excita. Um acéfalo ao leme dos EUA resolveu reconhecer Jerusalém como a capital oficial de Israel, mudando para lá a Embaixada, 128 países da ONU votaram contra a decisão, Netanyahu finge que defende a solução dos dois Estados para mascarar a ofensiva. Entretanto, o presente urge, a história avança, o inconcebível escancara-se, o colonialismo veste-se de cordeiro, e eis que alguém manda às urtigas a tendência internacional, incluindo a Wikipédia, e depois de três dias de raiva há mais protestos, o Hamas recusa-se a participar na reunião da Organização para a Libertação da Palestina, que decide não retomar as negociações de paz com Israel até que os EUA revertam a decisão de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.

Mas a vida existe, e no meio do caos e das diferenças é igual em toda a parte. As pessoas têm filhos, os filhos brincam, a pele enruga, bebem café, usam azeite. E é ao mesmo tempo diferente em toda a parte: os meus sonhos são meus, incluem bebés, romances publicados, uma carreira académica; ali há ainda o sonho de um país, as pessoas misturam-se com o avanço da história, não são independentes dela, todas as biografias são políticas. Poder-se-á dizer que os meus sonhos são pouca coisa, mas são os de quem já tem o essencial resolvido.

O passaporte certo vale muita coisa. Entendi-o pela primeira vez em Lesbos, onde pude entrar e de onde saí sem dar cavaco a ninguém. Era ali que a NATO disparava aos motores, que a FRONTEX gozava com os sírios, que havia quem não os servisse em restaurantes. Mostravam o dinheiro: no, no, go away. É a desumanização escancarada, a própria e a do outro.

Põe-se a noite, já jantei. Na praça central de Belém, putos de oito, dez anos vendem milho. Um deles fuma. Ouvem-se as mesquitas, em frente está a igreja que marca o lugar onde há-de ter nascido Cristo.

Bebo um chá e vou dormir. No meu quarto, há bombas de fumo do exército israelita. Não está frio.