Brasil, o mundo caído em vertigem

Aterrei pela primeira vez no Rio de Janeiro no dia 5 de Agosto de 2014. Era uma escala, dirigia-me ao sul do Brasil, e por isso tudo o que dali tirei foi uma burocracia lenta e invasiva, quase despropositada, muita gente de chinelos e casas empilhadas vistas do avião. Depois segui para Florianópolis.

Fiz o doutoramento no Brasil, andando entre lá e cá entre essa altura e Junho de 2017. Ter morado ali não me dá uma perspectiva particularmente incisiva, na medida em que a experiência foi tão fechada que não absorvi o que devia. Isto dirá muito sobre mim, nada sobre o país.

Notava-se, claro, que o país era outro em coisas distintas. Fosse pelos troncos nus no campus da Universidade, por palavras como açaí e acerola fazerem parte do vocabulário diário ou por achar que ia morrer desidratada se não tivesse quatro côcos na geladeira. E por outras ainda: tudo a olhar para mim como se eu fosse louca se deixasse o celular no tampo de uma mesa e me afastasse dois metros, pela forma como o centro de Florianópolis se esvaziava após as 7 e de repente os sem-abrigo, as drogas e o álcool eram os donos da cidade, ou pelo perigo que acarretava enganar-me numa rua a fazer jogging e ir parar a uma onde alguém pegava em armas. Isto na capital de Santa Catarina, tida como a cidade mais segura do Brasil, e onde o que salta à vista são as montanhas que saem do chão abruptamente, um pôr-do-sol multicor e uma água que dá vontade de ser feliz à pressa.

Durante este período, fui ao Rio de Janeiro várias vezes. Do aeroporto ao centro, os olhos comem tudo: a natureza exuberante, a mata atlântica que invade o alcatrão, a fusão entre ambas, o complexo da maré, que ocupa uma região à margem da Baía de Guanabara, e que é inevitável e inolvidável para quem quer que chegue ao Rio e saia do aeroporto para o centro. Foi ali que nasceu Marielle Franco. Mas já lá vamos.

Da primeira vez, o amigo que visitei dizia-me ter andado a ver casas. Algumas eram iguais, ficavam no mesmo quarteirão e tudo, mas os preços variavam entre metade e o dobro. É que umas estavam viradas para o morro, havia uma probabilidade maior de levarem com balas perdidas, e realmente ali estavam os pequenos buracos na parede do que poderia ser o quarto. O amigo em questão, português, pós-doutorado em informática, acabou por ficar a viver num prédio em Copacabana, com porteiro e portas e janelas gradeadas. Tinha chegado havia um mês e via perigo em todo o lado: naquela rua morreu este, naquela acontece aquilo, na outra houve um tiroteio, hoje ouvi nas notícias que. Viria a acontecer-me o mesmo um ano depois, quando fui morar para São Paulo.

O meu amigo não achou graça quando lhe disse que queria subir ao Morro dos Dois Irmãos. Teríamos de subir toda a favela do Vidigal, talvez de van ou com um motoboy, e ele olhava para o Rio e via o perigo. Mas lá fomos, estupidamente de chinelos, e depois de algumas quedas naquela subida íngreme durante uma hora e tal que nos deu cabo dos quadríceps levamos com a visão trágica, densa, literária e viva do Rio de Janeiro. Que raio de cidade era aquela? Dali via-se aquele azul-azul do mar, a vegetação pornográfica, a pedra do Arpoador, a Rocinha cortada ao meio por uma estrada, os bem na vida de Ipanema, Leblon, Copacabana, aquela Lagoa Rodrigo de Freitas que vem mexer por dentro. Rio de Janeiro, primeira vez, e eu já a querer levar a cidade para um motel.

Ali tinham vivido Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Olavo Bilac, ali viveriam Ruy Castro e Chico Buarque, que eu ainda acreditava poder ver aleatoriamente numa padaria do Leblon. Mas com uma cidade daquelas à frente parecia que qualquer nabo podia ser artista.

Foi essa cidade que Temer, o tragicómico presidente não-eleito, depois da maior enormidade política que já presenciei, perguntando isto e aquilo a brasileiros que também não me sabiam dizer como é que a ilegalidade era aceitável, ocupou com militares sob a desculpa de encarar o crime.

E voltemos então a Marielle Franco, espelho da guerra civil e política que se vive no Brasil e que eu, como a maior parte de nós, desconhecia até cerca de duas horas após a sua morte. Marielle é aquilo que já todos sabemos neste 20 de março, quase uma semana após a sua execução, e já se tornou ainda em mais, no símbolo de quem rejeita a chacina e o poder das armas aliado ao da gravata.

Marielle contava, nas eleições de 2016, com uns 6 mil votos, e acabou por ter 46 e 500. Foi a quinta mais votada no Rio de Janeiro.

Chegámos então a 2018. Em Fereveiro, criticou a ocupação militar do Rio, prelúdio, confirmação da carnificina, e foi nomeada relatora da Comissão da Câmara de Vereadores, ia então acompanhar a intervenção do exército. Em Março, perguntou-se “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”

Não é a morte que choca e, para quem vive ou viveu no Brasil, não é sequer a violência. Habituamo-nos a ela nos jornais e nas ruas. Quando me mudei para São Paulo, tudo me chocava. Três semanas depois, o que me chocava já era a minha impassividade, a naturalização das desigualdades, a forma gélida e neutra como passei a ver o horror escancarado. Tive de me aperceber disto, e foi preciso um esforço emocional e mental para não deixar que isto me dominasse e definisse e, em simultâneo, não me endurecesse em demasia. Portanto, o choque, para quem vive com balas, não é esse. É que a morte seja um aviso e uma ameaça, não só uma punição, e seja por isso um ataque colectivo.

O inominável continua a acontecer e o que não pode continuar a acontecer é este Brasil. Quantos mais vão precisar de morrer para que essa guerra acabe? As manifestações são extra-Brasil, e contundentes. Quem nunca ouviu falar de Marielle chora por empatia ou frustração, porque o limite já foi ultrapassado há muito, porque 500 anos de atrocidades fazem com que seja difícil acreditar que outro mundo é possível, mas, quando há uma disparidade tal, quando o conflito é tão latente, não há como não lhe pertencer e exigir o mundo que contra aquele existirá. Sem governos usurpadores, sem militares nas ruas, sem cidadãos de segunda, sem gente a trabalhar em elevadores, sem um salário mínimo deplorável, sem que humanos sejam escravos, sem que exista impunidade. No dia 14 de março, gente que nunca tinha ouvido falar de Marielle chorou por ela. Possam essas lágrimas ser a última gota de água.

 

Podcast: https://www.esquerda.net/audio/brasil-o-mundo-caido-em-vertigem