Brasil: a apropriação política dos meios jurídicos

O que se vê no Brasil agora não é uma disputa nem é a condenação de um crime: é a apropriação política dos meios jurídicos.

O Brasil tem tudo para dar asneira, é certo. Violência, preconceito, racismo, ódio, disparidade económica, gente servida e a servir, riqueza e escravidão. E, ao mesmo tempo, tem uma alegria de viver que chega a incomodar.

Cheguei ao Brasil à portuguesa taciturna e, em vez de me agradar o contraste, o Brasil incomodava-me. Aquela mania de se ver beleza em todo o lado, de puxar para a mó de cima, tudo contrastava com o meu tipo de humor, era tudo demasiado intenso e depois tudo emotivo. Não acreditava naquela alegria nem acreditava naquelas emoções. Queria ser largada em paz e o samba era intrusivo.

Os brasileiros que conheci pareciam estar sempre alegres. Dançavam sobre os destroços, eram demasiado simpáticos, sorriam o tempo todo. Parece o paraíso, não é? Para mim, era o demónio, e cismava em achar que a alegria era assunto resolvido, e que tudo o que não era alegre é que era assunto. Não pegava. Odiavam fado e riam-se de nós, diziam “nossa, bem engraçadinho, mas um pouco triste, né?” Parecia-me sempre que ali não se sabia lidar com feridas.

Juntava a isso a relação que se tinha com humor negro. Era proibido. Os meus amigos irritavam-se, zangavam-se, achavam que estava a zoar com eles. “Isso é comum em português?”, perguntavam. “Aqui é má educação”, diziam. E eu irritava-me com aquela paz armada.

Tudo isto para vos falar de um país que daqui vemos em cacos. O Brasil é demasiado contrastante para caber numa só análise. Há muitas coisas inexplicáveis até para quem é de lá, como o impeachment, como a condenação do Lula. Perguntando a uma amiga o que fará neste cenário, disse-me “tá muito bizarra a situação. No fundo, nem sem sei as eleições vão mesmo acontecer.” “Isso é possível?”, perguntei. “Tudo é possível num país com tantos canalhas.”

Custou-me muito entender o impeachment, porque não me entrava na cabeça que o Senado provasse uma coisa enquanto fazia o seu contrário. “Como assim?”, perguntava. “É mesmo assim”, diziam. “Mas como assim?”, “É assim mesmo”. E eu irritava-me com o que parecia resignação.

O que vimos com Lula foi a tortura da semântica, e ainda a tortura da noção de Estado: condenado sem provas perante outros que, mesmo com provas, não são condenados. Depois de uns tempos de Brasil, já entra na cabeça: os meios jurídicos foram apropriados pela política, já ninguém se dá ao trabalho de entender, há provas que condenam Temer que parecem não servir para nada, e entretanto as canalhices acontecem.

No Brasil, também me incomodou uma forma de ver a política muito clubista - ou estás comigo ou contra mim. “Não votaria Dilma”, afirmei. “Quê? Você votaria em Aécio?” Claro que não, mas ou há Porto ou Benfica. Os meus colegas de turma de doutoramento eram quase todos do PT e ali o PT era um clube de futebol. Aumentava nisso o abismo entre nós.

O ódio que Lula tem vindo a despontar não é o ódio pela corrupção – quem o condena está enterrado nela até aos ombros. É o ódio pelos pobres e pelos pretos e por uma ordem social que tente restabelecer alguma equidade, num país lixado pela colonização portuguesa e pelos resquícios que deixou com montanhas em toda a parte. É o ódio à ideia de que uns não nascem para servir, de que não há gente cujo destino escrito à nascença é estar dentro de um elevador doze horas por dia a carregar num botão para ele andar. É o ódio à ideia de que a vida não é só mandar nos outros.

Esse ódio, essa gente, esse Brasil, encontram terreno fértil em Bolsonaro. Basta ir ao Google, procurar um best of – melhores frases de Bolsonaro – e aí vem em catadupa, fascismo, machismo, misoginia, homofobia, ditadura, estupidez, estupidez, canalhice, estupidez e canalhice.

A seguir a Lula, é ele quem lidera as sondagens. Pensar que aquele monstro pode ser a imagem do país é um baluarte ao ódio que sobeja nesse país e a tudo o que ele não deve ser. E é tão asqueroso e revoltante que parece que olhamos para trás, voltamos aos tempos em que se punha pretos a trabalhar para brancos, em que violar mulheres era o pão nosso de cada dia, em que se podia matar ao deus-dará. É esse o Brasil que Bolsonaro quer, é contra esse Brasil que o Brasil tem de lutar.

Podcast: https://www.esquerda.net/audio/brasil-apropriacao-politica-dos-meios-juridicos