Carnaval no fogo, Ruy Castro

Crónica de uma cidade excitante demais, é o subtítulo, e é quase desnecessário: “O que teremos de pagar por tanta beleza?” No Rio, o pagamento se dá numa moeda forte: excitação. É uma das cidades mais excitantes do mundo - talvez um pouco excitante demais.” E daqui se segue por aí fora, com a baía de Guanabara ao fundo e uma narrativa em fio, elegante, sobre colonização, hábitos, calor, pés com chinelos e bermudas, mulheres.

E é impossível lê-lo sem pensar naqueles quilómetros em ebulição, naquela paisagem que, de tão bonita, se torna trágica, na sensação que se tem de se aterrar no centro do mundo. Não dá para não pensar naquela lagoa a céu aberto, abraçada pelas montanhas circundantes, com pedalinhos, quadríceps musculados, o mar ali ao lado. Não dá para esquecer as mulheres que olham para nós e vêem carne, as avós que olham para nós e vêem carne, as propostas indecentes que nos fazem. Será assim o jogo da cidade. Rio de Janeiro, que vontade de te levar para um motel.

É chegar, abrir os olhos, tentar entender tudo, é arder ao chegar no terror de perdê-lo. É chegar e saber que não dará para entender nada, mas enfim dará ainda para seguirmos o cliché, para repararmos nas ruas naquelas mulheres com um riso selvagem entre os lábios. Olham-nos e eis que surge a chispa de desejo, tudo o que querem destes corpos portugueses, com esta língua fria de quem não conhece o amor, língua que não dança, gélida, língua que só serve para negócios e mais nada. Acessíveis e ao alcance da mão, mas mais inacessíveis do que quaisquer outras: a seguir ao fim, jamais há luto, há outro corpo. Carioca é brasileiro: sorri e sabe que vai sobreviver.

Dizem os nossos nomes, dizem “nossa, bem bonitinho, seu sotaque” com aquele sorriso de promessa, de convite e rejeição, que nos vai levar a duas horas num lugar que parece de outra vida – Copacabana existe mesmo? O Vidigal existe mesmo? O Cosme Velho existe mesmo? Este quarto feito para carne existe mesmo? – e, sambando, vai ficar a vida inteira como certeza de que existe uma coisa bem diferente. E lá vão dizendo as suas coisas, desfiando as suas vidas. Meu neto tá ficando lá em casa. (Tens mesmo um neto?) Meu filho tá morando lá em Copacabana, junto ao seu hotel. (Tens quantos filhos?) Foi quando estive de aniversário de 60. (Meu deus, mas quando é que nasceste?!) Nossa, bem bonitinho, seu sotaque. (Que posso eu dizer agora?) Você tem rostinho de menina. (Pois... É que é isso que eu sou.) Bem bonitinha, dizendo pois. Eu não entendo sua fala. E riem, atirando a cabeça para trás.

A seguir, levantam-se como se não tivesse acontecido nada, como se nos conhecessem e fosse normal estar ali. Para elas, é mesmo a coisa mais normal do mundo. Apanham-nos no Arpoador e dizem: “você quer vir num motel comigo?” Cinco minutos depois, estamos em cima de uma mota, passamos Ipanema, chegamos ao Leblon, passamos o Leblon, passamos o Sheraton, chegamos a São Conrado e tornamo-nos em personagens de romances. É que as noites ali nem contam, é como se fossem só conversa. O Rio de Janeiro é dia-a-dia ou é uma história inventada pelo Nelson Rodrigues?

E os portugueses ali chegam com as suas dores, vêem corpos morenos e quentes, sambistas, chegam com o silêncio, a dor aguda de alguma coisa mal curada, no estômago a vontade de minar o que não sucumbiu ao esquecimento, e o Rio de Janeiro estende-se tão simples: usa shortinhos e chinelos, diz o seu “fique à vontade”, mete-nos nas mãos um côco verde. Este livro é também sobre o que não se leva a sério.

(Perdoem-me o devaneio, estas páginas são teletransporte.)