Chegar a Jerusalém

Paris-Tel Aviv

À minha frente, está uma excursão de brasileiros, um leva um casaco com a bandeira de Israel e um chapéu com o nome.

Primeiro checkpoint, perguntam-me para onde vou, quanto tempo, se alguém me pôs algo na mala.

Faço o check-in, há gente que vai para toda a parte. E eu vou mesmo para Israel?

 

Na viagem, só se ouve português. A excursão ocupa metade do avião, e é aquela em que me encontro. Comem, falam alto, chamam-se e a hospedeira manda-os sentarem-se três vezes antes da descolagem. Não há conversas privadas nem sossego. A mulher atrás de mim não se cala, diz que tem de lavar a camisola e que a viagem demora quatro horas e repete-o até já não se aguentar mais, o homem da frente resolveu ver um filme em alta voz. Ponho os phones, troco-os pela Maria Bethânia, tento dormir. Nem em direcção a Tel Aviv consigo a sensação de estranheza que procuro nas viagens. O mundo está a ficar pequeno, nada é muito longe.

 

Tel-Aviv

Já no aeroporto em Tel Aviv, várias perguntas: nome dos pais, como se articula o meu nome, onde fica Guimarães, o que estou a fazer em Israel, em que trabalho, a que cidades quero ir, se sei que estou em Israel e não na Palestina.

 

Jerusalém

Chego a Jerusalém de madrugada, quando o sol está a acabar de entrar no céu. Dormi na viagem de ônibus e nada vi da paisagem. Primeiras impressões: frio, espaçoso, judeus ortodoxos, kippahs, gente nova armada, miúdos e miúdas, civis e militares. Apanho o eléctrico para perto da cidade velha, várias lojas e cafés, hebraico e árabe, tudo fechado, ainda é cedo.

Entro na cidade velha, quase deserta, vou ao hotel pousar a mochila, só posso entrar no quarto às onze. Passeio por uma cidade velha vazia, vejo a luz, a pedra branca, gatos vadios, bandeiras azuis e brancas, lojas religiosas fechadas, e eis que entro numa igreja à toa. Deixei guia e mapas na mochila, nem sei bem onde estou, tonta de sono, não há nada em inglês, não leio o alfabeto. Era a Basílica do Santo Sepulcro, construída em 335, o lugar onde Jesus há-de ter sido sacrificado. Nenhuma segurança à entrada, o que virá a repetir-se em outros lugares católicos, ao contrário dos judaicos e muçulmanos.

Peço indicações ao exército israelita, à entrada da porta de Damasco, só para testar. O soldado, fardado, armado e de cara tapada, dá-me as indicações que pretendo, e eu ainda lhe sorrio tendo uma A47 apontada à cara. Ele não parece achar estranho ou inaugural, eu ajo como se aquilo não fosse perturbador. Israel impõe-se, a praça tem, nuns 50 metros, dois grupos de gente armada até aos dentes, um de cara tapada. O clima é de bomba atómica.

Chego ao Muro das Lamentações. Judeus ortodoxos e outros amontoam-se, balançam-se, quase batem com a cabeça na pedra, cantam, até choram. Vários têm Bíblias nas mãos. Tento aproximar-me, o guarda diz “This is a place of modesty, people should focus on praying, not on the opposite sex”. Antiquado e bizarro, mas enfim, vou para o lado das mulheres ver se alguma judia me agrada. Volto as costas, nunca achei piada a beatas.

Tento entrar no Monte do Templo, mas os guardas israelitas não me deixam. Dizem que é só para muçulmanos, e o interesse ainda me dá direito a um arzinho de desprezo.

O Muro das Lamentações, a Via Lacrimosa, a Mesquita de Al-Aqsa – reúnem-se ali três das maiores religiões monoteístas do mundo, tudo acha ter direito sagrado à terra e o que não falta são fanáticos. As pessoas são as religiões que professam, não é raro que um desconhecido me pergunte de que religião sou, que faça um ar confuso depois de eu ter respondido negativamente às três perguntas: “Are you a Christian? Jew? Muslim?” E depois ainda levo com um “Then what are you?”. Onde convém, por todo o lado, a bandeira israelita ergue-se como demonstração de poder: um livro há-de ter dado o legítimo direito a que aquela terra, aquela pedra, seja israelita, judaica.

É o primeiro dia, e não consigo olhar para ela sem sentir asco. Está ali como agressão, serve para humilhar, para a imposição do povo eleito. Quem usa uma t-shirt com o símbolo de Portugal é visto como fã do Ronaldo, mas aquela bandeira, mais do que qualquer outra, é uma declaração política: a Palestina não importa, este espaço é nosso, o nosso símbolo fica aqui para que toda a gente o veja, para que saiba onde está, quem manda aqui. O da Palestina, pasme-se, é proibido. Ainda assim, na souk, há quem venda cartazes e t-shirts a defender a libertação da Palestina. A maior parte das pequenas lojas vende souvenirs de um ou de outro – de Israel ou da Palestina, do exército ou da libertação –, mas, num lugar onde não se pode viver e ser apolítico, mais do que em qualquer outro que tenha visto, ainda há quem venda ambos. Há t-shirts a dizer Free Palestine ao lado de outras com a bandeira de Israel.

Ao fim da tarde, conheço o A. Foi por acaso, vi uma loja de café e entrei, queria experimentar café com cardamomo, de que nunca tinha ouvido falar até há meses. Ou tinha lido sobre ele num livro mas ao não entender esqueci. Era mais uma palavra estranha - estrangeira - de um mundo que não era o meu. Mas soube o que era, e ao reler notei-o. E ainda o pus num chá, juntei-o a limão, canela, flores de anis. Quem provou achou horrível, demasiado limão, muita canela.

O A é palestiniano, mas o passaporte, com o símbolo de Israel, escrito em hebraico, diz que é jordano. Já teve de se explicar em aeroportos. Jerusalém Oriental tinha estado sobre administração jordaniana, e isso é usado como razão para que os novos passaportes dados em Jerusalém identifiquem os palestinianos como naturais da Jordânia. Impensável identificá-los como aquilo que são, porque isso seria assumir que a Palestina existe como um estado, romper a cavalgada colonialista sobre um país que se vai geograficamente apequenando.

Falamos das cidades cercadas, do Trump, das violações dos direitos humanos por parte do estado de Israel, da possibilidade de se prender pessoas durante seis anos sem uma acusação, de Chomsky, Said, Ilan Pappé. É escritor, escreveu sobre a Palestina, convida-me para a apresentação de um livro. Será em árabe, mas se for possível lá estarei. Deixo-lhe o meu contacto para que me confirme a hora.

O exército de Israel é obrigatório para homens e mulheres. Quem faz o serviço militar e diz que não controlará palestinianos é preso, considerado inimigo de Israel. Há soldados armados em toda a parte, putos armados em toda a parte, miúdas giras de metralhadora numa mão e cone de gelado noutra, civis armados no meio da multidão. Convive-se com armas como se elas, num micro-segundo, não pudessem ditar o fim de nada.

Falamos de um país onde a bandeira de Israel é erguida ao lado da dos EUA e da UE e onde se fazem outdoors a dizer God bless Trump from JerUSAlem DC to Washington DC. É o poder norte-americano ao lado do de Israel, económico e cultural, e é uma sensação de raiva a trilhar-se entre os dentes. Não dá vontade de discutir nada, dá vontade de agredir. É o regabofe triunfalista, a supremacia dos exércitos, a imposição de uma cultura, a arrogância, a cegueira, a violência sem fim do povo eleito. O saque, a pilhagem, os direitos humanos atropelados, tudo reside na bandeira de Israel, tudo se intensifica quando esta é posta ao lado do megalomania de Donald Trump. Está a tentar fazer-se da história tábua rasa, apagá-la, apagar o presente, chutar para um canto quem incomoda e impede a materialização da força mítica dos fanáticos.

Mas enfim, nem tudo é trágico, os turistas passam aos bandos, com um guia à frente, identificados com crachás ou chapéus. São orientados como se estivessem em Israel, parecem nem saber que a Palestina existe, que estão numa cidade dividida. Vão atrás das cruzes, dos passos de Cristo, o conflito está ali à frente e parecem nem conseguir vê-lo. Não apenas o conflito entre civilizações, mas o claro domínio de uma sobre a outra. No hotel, ouve-se Jesus is in my heart. Está posta a noite.