Entrada #7

Depois de ler toda a narrativa no computador, resolvi imprimi-la. O papel dá um ar mais definitivo, deixa-me mais próxima do texto, sinto que ali o olhar é mais cirúrgico. Ainda por cima, tinha a leve impressão de que o texto tinha algumas gorduras, que seria mais fácil cortá-las a caneta. Por isso, imprimi aquelas 330 páginas com crueza, queria rasgar os excessos com a clareza com que um bisturi separa a carne.

Gorduras? A caneta a cortar não deu descanso, até fiquei sem tinta a meio. Percebi que tenho uma tendência tediosa - talvez resquício da experiência académica - para explicar tudo e não deixar abertas. Uma personagem não sai de um sítio e entra noutro, a narrativa mora no percurso. Ou seja, não tenho uma linguagem cirúrgica, falta-me a precisão, o traço inesquecível, talvez o fulgor poético. Demoro até traçar um ambiente, fujo para o pormenor, evito perguntas. 1) Serão manias de académica ou só falta de talento?

Não ter uma linguagem cirúrgica obriga-me a pensar no pormenor, o problema é metê-lo em concomitância na página com o quadro maior. 2) Alguém terá paciência para aquilo?

Comecei este livro com 24 anos. 3) Terei nascido assim tão velha? E meto tudo o que leio no que escrevo, os estímulos são constantes, imparáveis, a narrativa não encontra o seu fluxo próprio. 4) Nem um romance pára o mundo?

Enfim, risquei o que tinha a riscar, vamos lá dar descanso a isto uns tempos e, de preferência, riscar ainda mais. As 330 páginas tornaram-se em 275. 5) Gorduras? Era mesmo obesidade mórbida.