Entrada #1

Estão 340 páginas escritas, ainda irei a tempo de repensar o narrador? Se o mudar, mudo o livro todo, vai ao ar o plano inicial, o embuste em que me meti em consciência: criar um homem igual a mim nos seus segredos, oposto na forma de os suturar. Mas somos o que fazemos e é ao criar a tendência para o adultério - o tal oposto - que me permito este grande luxo, esta pequena cobardia a que chamamos ficção. Tento não tropeçar nas racionalizações, fazer revisões que limpem a prosa mas que não matem os demónios. Quero um texto com vísceras, mas queria não lá deixar as minhas. Terei de enfeitar as paredes da casa com palavras e esquemas para saber se o que criei faz sentido, castigar a estrutura, testá-la. Que ninguém acredite na prosa fluída, há uma fatalidade em cada frase. E, no final, olho para tudo, para este monstro disforme, e vejo uma técnica boazinha e um romance de falhanços. A única forma de lhe dar comida à boca é não deixar que o mundo o perturbe em demasia. Já tem o seu combustível, vejamos onde chega. O silêncio e a escuridão de um contentor de reciclagem talvez sejam também bons portos.