Entrada #5

O narrador não é psiquiatra. É um rapaz de 25 anos, atreito à ideia de normalidade, a querer ser o mais normal possível, com um fascínio pelo que é banal. “Viver como os outros, ser um deles”, eis o que o fascina. E por isso repugna-lhe tudo o que chama a atenção, as dores expostas, a loucura escancarada, os olhos que desvendam as doenças; repugnam-lhe os excessos sentimentais, as declarações de amor de uma mulher que não lhe agrada, a infantilidade que lhe vê em cada palavra, em cada gesto; horroriza-se com a dependência - económica, social, relacional. Tem medo dos doentes psiquiátricos porque já viu que abismos têm e sabe o quão difícil é erguerem-se. Afasta-os, também por isso, não quer misturar-se, não quer contágio, não quer que a vida se faça à volta de cérebros descontrolados. Por isso, estereotipa-os. Odeia-os também, e por vezes despreza-os, razão pela qual terá - para que seja uma personagem convincente, gente a sério - de ter uma visão quase unilateral. A narrativa está escrita pela sua mão, o que pode fazer com que eu dê uma visão superficial dos assuntos. Por outro lado, propus-me a criar alguém com determinadas características, talvez preocupar-me com o rigor científico possa só servir para matar a narrativa. Não sei se consigo alcançar a dimensão inicialmente pretendida, mas percebi há pouco que o caminho é a ironia, a violência e o humor.

É tudo visto pelos seus olhos, o que se encaminha forçosamente para uma visão demasiado intrínseca a uma só pessoa. Poderá ser difícil dar-lhe mundo: é um rapaz com uma vida quase banal, não é credível que eu meta nele todos os assuntos, todas as angústias, todos os problemas. E a angústia cansa. Aguentamos a nossa, mas a dos outros parece-nos sempre megalómana, histriónica, fora de tom, falta de jeito para a vida. Aliás, é ele mesmo quem o diz: “As dores dos outros matam, vergam-nos as costas, enchem-nos de tédio.”

Chama-se T., gosta de betacismo, goza com o sotaque de Lisboa.