Entrada #6

Escritores do mundo, como é que vocês fazem? Também gastam o texto até ele não querer dizer nada? Também se fartam tanto dele que o tornam em tábua rasa? As angústias do meu narrador irritam-me. É por ter passado tanto tempo a olhar para a angústia de outro ou é porque ela per se é irritante? Cheguei à hora de cortar gorduras, e que liberdade é secar o texto, dar umas tesouradas aqui e ali, tirar o que incomoda como se afastasse um peso.

Também é possível que a escrita na primeira pessoa possa criar um certo efeito de asco. É uma personagem, pois bem, criada com o que tem de único e com o que foi replicado da vida, de uns lugares e de outros, à Frankenstein, mas é uma personagem que eu quero que seja pessoa, e as pessoas não são assim tão interessantes.

Podia julgar que a opção pelo narrador participante podia não ter sido acertada. Mas, se assim não fosse, para onde iria este livro? Não iria, seria outro. O problema é que criar um mundo em que a acção acontece quase toda na mente silenciosa do narrador pode não ser grande espingarda: pela mente dele só poderá passar o que passar pela minha e eu nem tenho mundo nem calibre.

Enfim, o plano era este, a teoria literária só me faz mal à cabeça: a doença bipolar vista por um rapaz de 25 anos. Há-de ter o seu lugar no mundo.