Era gira, tinha covinhas

Era gira, mais nova do que eu, tinha covinhas. Estava vestida de verde. Eu nem costumo olhar para gente mais nova, mas nela talvez tenha sido isso que atraiu.

Era uma miúda, e aqueles buracos nas bochechas davam-lhe um ar inofensivo. mas não precisava de proteção, pelo contrário.

Sim, a idade perturbava. E outras coisas também, ainda mais.

Na mão esquerda, tinha um cone de gelado. Estávamos no inverno, e não era o frio que era desconcertante, era a metralhadora que tinha na mão direita. Mas gente daquela idade andava assim armada?

Estávamos à porta do ônibus. Ela segurava uma arma letal - e um gelado -, pegava na mochila, e eu pegava na mochila sem nada que pudesse rebentar a cabeça a ninguém.

Há uma carga confessional nisto, que afasta a impunidade: o que mais me perturbava era que fosse tão bonita, que me desse vontade de ficar a olhar para ela, talvez em contemplação extasiada. Nunca acho bonitas cabeças que não são grisalhas e nunca acho graça a testas que não têm rugas. Parece sempre tudo liso, tudo por acontecer, uma tábua rasa e sem tralha, gente vazia de passado. Mas ela era mais nova do que eu e puxava-me os olhos, e tinha olhos que me agarravam como se fossem mãos. tanta história ali dentro, e tão distante. Continuava a comer o seu gelado, e eu atrás dela sem ter existido, sem que reparasse que esta europeia a invadia com os olhos. Não que ela não percebesse de invasões.

Vinte e poucos anos, se tanto, e já de arma na mão. Vinte e poucos anos e já a saber que, se fosse preciso, era para matar e para humilhar. Vinte e poucos anos e já era o símbolo de um estado que se impunha. E ainda por cima tinha aquelas covinhas. Quando os imaginava ao longe, nunca me passara pela cabeça que pudessem ser fofos.

É que estamos habituados ao mal escancarado, ao Hitler com aquele ar de maníaco, ao Voldemort sem nariz, todo de negro. Com caras bonitas, sorrisos doces, a história é outra, dão-nos sempre vontade de dizer “hei-de seguir-te até ao fim”.

Pois é, Janeiro de 2018, e eu a olhar para uma miúda com covinhas de fazer dar a volta ao mundo. Já a teria dado? Saberia que os olhos do mundo estavam nela? Como é que o mal se permitia ser fofo?

Ainda por cima, se tudo o que repugna vivia ali, ser-me-ia difícil voltar a confiar em primeiras impressões.

Janeiro de 2018, e eu a escrutinar uma militar israelita. Estamos na fila do ônibus, ela mete conversa, eu sorrio, mas não quero sorrir. Ela diz outra coisa, eu não sorrio, mas quero. O mal nunca devia ser bonito, e aquelas covinhas de esmagar um coração.

E aquela miúda era já milhares de corações esmagados, o sonho de um Estado, o direito ignorado de não estar preso entre paredes, de ser gente, e era ainda gente encarcerada, famílias separadas, o direito internacional atropelado, crianças metidas na cadeia. O problema do mal é invadir como o exército, e depois fixar-se na banalidade quotidiana de quem fica numa fila do ônibus à espera.

Podcast: https://www.esquerda.net/audio/era-gira-tinha-covinhas