Hebron e os snipers de kippah

A visita é curta, mas o colonialismo é de chapa. Israel está ali instalado, há vários checkpoints, lugares onde os palestinianos não podem entrar. A cidade foi dividida ao meio, o meu passaporte permite-me andar dos dois lados, a minha cor também. E assim, na primeira hora, mostro a identificação três vezes, entrando em território israelita, roubado, andando por ruas abandonadas. Lojas e casas sem ninguém, por ali só eu e gente armada. O cenário é de desolação, pré-apocalíptico, tudo evoca a guerra, desde a cidade fantasma aos vários militares armados, uns em telhados, à snipers, de kippah. Isto está mesmo a acontecer e eu estou mesmo a andar aqui? O choque é grande, parece um filme.

Passagens bíblicas dizem ser este o território dos judeus, e essas passagens são transcritas nos edifícios sem ninguém. O Povo Eleito clama a terra, expulsa quem a usa, só a quer para a dizer sua. Os palestinianos foram expulsos, por todo o lado há bandeiras de Israel. Para quem?

Adiante, junto ao checkpoint, três crianças brincam e uma senhora de hijab está no telhado. Devem ser palestinianas, por algum motivo os putos terão autorização para ali estar. Um deles atira-me beijinhos da bicicleta, outro pergunta-me em inglês de onde sou. Continuam a brincar, no chão há ratos mortos. Não é ficção, não é a realidade tratada por um artista para a vermos nos olhos, cortada a bisturi para doer mais, é mesmo a secura dos dias: ruas abandonadas, três crianças a brincar, ratos mortos, snipers de kippah nos telhados, bandeiras de Israel. O que existe torna-se em hiper-realidade. A vida mistura-se com a desolação do abandono. Sobram ruínas e a história que Israel quer contar.

Passo pelo checkpoint, com o meu duro coração partido, e estou de novo em território palestiniano. Para mim, tão fácil. Passa a haver bandeiras de outra cor, muita, muita gente, comércio. Uma barreira feita com pedras a cinco metros do lugar onde Israel pôs a sua marca. Estamos a dez segundos a pé de um mundo deitado ao abandono. Como é que isto coexiste?

Com conflito permanente. Um homem conta-me que a sua casa é revistada todos os dias, porque fica colada ao território que Israel decidiu ser seu. No chão, há marcas de fogo, pedra ardida.

Um senhor vende fruta, peço-lhe uma banana. "One, one". "One kilo?" "One banana." "How much is it?", pergunto, já de moedas na mão. Abana a cabeça, oferece-ma e eu sinto culpa.