Lisboa

Lisboa é isto: esta mulher de braços abertos ao mundo, luminosa, intensa, vibrante, pronta a dar a volta a tudo. Não dá para entender se é romance ou romancista. Sabe-se apenas que Lisboa nunca sofre, que é aquela menina de cor clara, saia às cores, que dança no Terreiro do Paço em frente ao Tejo, centrada no pódio pelos feixes de luz do céu.

E é o espanto de sempre a cada declive. Depois de uma curva, um fio de Tejo ao fundo, uma corda de espanto, uma rua que é vertigem. A certeza de que esta cidade é vida, e tanta coisa. Do Largo de Camões, há uma rua que desce a pique até ao azul-azul do rio. De novo, a claridade desta cidade palpitante. A luz de que Lisboa se faz ilude e parece capaz de desfazer os recantos escondidos. Fascinamo-nos com ela e ela segue indiferente a bailar no seu vestido.

O Tejo surpreende sempre, com as suas camadas de azul. Estende-se até à outra margem, tem um Cristo de braços abertos ao fundo, ao mundo, e leva ao mar onde jazem tantos mortos. Mas a vida é isto e aqui acontece, quem pode lembrar-se da história e das naus afundadas nesta cidade que combate a depressão? Há demasiadas coisas a espreitar em cada esquina. O amor, o desejo, os caprichos, as frustrações, tudo se move sorrateiramente nestes recantos tenebrosos, nos bares e nas vielas, nos declives.

E andamos por aí com os pés em brasa, a cabeça num canho pelos ecos da cidade, a única cidade do mundo onde o encanto e o horror se misturam, a única cidade do mundo que é uma mulher a pedir cama. Como pode um pedaço de chão ser terra, pedras, água e, ao mesmo tempo, lençóis brancos?

O Tejo estiraçado, longo e plano, perpétuo, viola-nos e ilumina-nos com aquele azul-azul, vertical e trágico, com a imagem das suas mulheres de seda chegadas aos cinquenta. Serão gente ou personagens de romances envoltas em cachecóis?

Lisboa, que vontade de ter filhos contigo.