Maomé subiu num cavalo alado

Há um horário para que os turistas – ou não muçulmanos – possam entrar na Esplanada das Mesquitas, ainda que não possam entrar na Mesquita do Rochedo (tentei e fui barrada). Durante todo o dia, todas as entradas são vigiadas por soldados, e o horário para todos é curto.

O espaço é dos muçulmanos, que ali serão os palestinianos, mas quem os guarda são os soldados de Israel. Entro pelo Muro das Lamentações, passo por segurança como num aeroporto, mostro passaporte e bagagem, perguntam-me a religião, dizem ao rapaz do lado, cristão, que, se tiver alguma cruz, terá de escondê-la. Passada a verificação, o puto armado sorri e é simpático: “Welcome to Israel”. O desplante fere?

Lá dentro, está pouca gente, quase nenhum muçulmano. Em breve, virá um homem aos gritos dizer a quem lá está que temos de sair para as rezas. Entretanto, dou umas voltas no lugar onde se diz que Maomé subiu num cavalo alado. É o terceiro lugar santo do Islão, um amigo diz-me ter ficado emocionado. Eu ando pela praça e sinto pouca coisa, ou nada para além da confusão de ver tanta coisa junta: o Nobre Santuário, o Muro das Lamentações, a Via Sacra, o Monte das Oliveiras. Terá sido na cripta da Mesquita do Rochedo que Maomé recebeu de Deus a orientação de cinco rezas por dia, e será por isso que muçulmanos ali se dirigem frequentemente ou põem um tapete no chão e oram ao seu deus invisível. Al-Aqsa foi construída em 705 d.C., diz-se, para que os muçulmanos de Jerusalém rezassem voltados para Meca, já que muitos o faziam voltados para a primeira.

Mas enfim, chega o homem aos berros por todo o complexo, chega de turistas, chega de fotografias, sai tudo pela porta mais à mão. Saio pela souk, passando por uma mulher toda tapada (mas ela vê alguma coisa?) e volto ao Muro das Lamentações.

Tudo cheio de soldados. Putos com armas pavoneiam metralhadoras para as fotos, turistas tiram-nas como se eles fossem animais. Os miúdos de farda sorriem, demonstram o poder de Israel. Também há gente sem farda de metralhadora no braço, lança-granadas. Miúdos imberbes. Pára-quedistas. Dois soldados, muito novos, bem mais novos do que eu, estão sem armas no coldre, mas mexem em várias, movem-nas num espaço de dois metros. Sorriem, há mais fotos. O militarismo é o pão de cada dia.

É tudo tão bizarro que ando às voltas até conseguir meter conversa com um soldado. Faço-o, finalmente, pergunto-lhe o que estão ali a fazer. Fala como quem se gaba, fardado, armado, observador, potencialmente poderoso e admirado, incapaz de entender que eu só estou mesmo a pôr a mão na massa, a ter a certeza de que esta gente existe mesmo. Toma as minhas perguntas sobre o que ele faz por interesse nele, pergunta-me, sorrindo, do you want to do something tonight? Sorrio-lhe também, digo-lhe yes. Faço uma pausa, acrescento But not with you e viro as costas.