O lugar onde até partir um pé é bom

Há os que falam e não dizem nada e os que escrevem e estragam tudo ou mentem.

É que a literatura tem o defeito, ou o condão, de endeusar a dor. Fá-lo através de uma linguagem depurada, romantizando-a e fazendo-a bonita e não carniceira, ou bonita por ser carniceira. O facto é que tudo o que é mau na vida no papel tem um ponto a mais. Admiramos os escritores que, com duas pinceladas, traçam um ambiente: cheiros, murros no estômago, o degrau que falha. Passamos pelas situações e amanhamo-nos, improvisamos quase todos os dias, às vezes copiamos os outros quando agimos. Os lutos são iguais, há uma série de tarefas a cumprir. Depois partimos, os dias passam, as rugas chegam, as décadas seguem mais ou menos escorreitas, olhamos para trás e ali está meia vida que não volta.

O processo dos escritores é outro. Dão-lhe algum tempo, que agir sobre o que arde queima, e as cinzas de um texto não servem para nada. Olham de longe, pegam na dor guardada, ainda fresca, e depuram-na com uma sensibilidade aguda, a sua própria técnica e mais mil técnicas condensadas. Convocam-se uns aos outros, um livro vive em livros.

A ideia de depurar a língua terá de vir de braço dado com a da sensibilidade aguda. Não se fala do “ai que ela não me quer”, do “sem ti a vida não faz sentido”, do “ai jesus, para onde é que eu vou?”, da banalidade repetida, das frases que existem sem autor. E é por isso que um texto depurado evita a lamechice. Pelo contrário, é duro, afasta o delicocoiso, não tem corações nem cor-de-rosa. Faz o oposto: rouba o eterno ao transitório, corta a bisturi o que dói mais, encara demónios, expurga-os, trata-os com mil cuidados. Quando damos por nós, os demónios já são deuses.

Não será tarefa fácil, exige coragem, frieza, um saber fazer, olhos particulares, e uma mão incisiva e bruta à volta da caneta. Mas pode ser pernicioso: comparamos a literatura à secura dos dias e tudo parece rápido e volátil, dito num português básico, não cirúrgico, e o pior é que as pessoas são muito menos coerentes do que os livros. A eternidade dura menos tempo, e que dizer da intensidade? O Werther já está morto – matou-se –, e a vida já é líquida, vertiginosa, os anos passam, já não há tempo para obsessões que nos consomem.

Quem altera entre um mundo e outro vê a necessidade de adaptar os dois graus de intensidade. As personagens são magníficas nos livros, insuportáveis no café. Mas será difícil dosear o que se dá, partir de uma vertigem para a lassidão dos dias, não deixar cair um pé no abismo que se faz entre eles. Mas enfim, é uma perna, depois a outra, as pessoas misturam-se, conhecem-se, pintam a paisagem, vão jogar à bola e uma delas tropeça, vai duas horas ao hospital, e é uma entorse no tornozelo, cheiro a soro e mercúrio, queixumes dos doentes do lado, duas semanas de muletas, a andar como um pato e com dores, a mensalidade no ginásio sem servir para nada, os quadríceps a perder firmeza, e pensamos que a literatura arranjaria forma de fingir que isto é bonito, mas a verdade é que não dá jeito nenhum.

 

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