Palestina: a comunidade internacional anda a dormir?

Os civis não são poupados mas o Governo de Telavive acha que não tem de dar explicações. Pois é, estamos em Abril de 2018 e a história é sempre a mesma: Israel bombardeia, Israel continua na sua arrogância triunfalista, Israel não dá cavaco a ninguém, Netanyahu segue imperscrutável no seu fanatismo e diz que os soldados fizeram o que tinha de ser feito.

As imagens que nos chegam de Gaza poderiam ser chocantes, mas neste momento a história já é conhecida, e o que choca é a impassividade internacional em relação às políticas israelitas. Vemos pessoas - desarmadas, convém sempre referir, não vá aparecer qualquer fanático - com os dedos enfiados nos olhos a tentar contrariar a acção do gás-pimenta, um homem de cadeira de rodas ali no meio a ser puxado por outro, um grupo que leva um cadáver embrulhado na bandeira palestiniana, braços erguidos, palmas abertas, perante outros esticados em frente com as palmas à volta de gatilhos.

António Guterres, presidente da ONU, e Federica Mogherini, líder da diplomacia da União Europeia, pediram uma investigação independente sobre o que aconteceu na fronteira entre Gaza e Israel faz hoje uma semana: o exército israelita assassinou 17 pessoas e cerca de 770 foram atingidas por munições. Se contarmos as que ficaram feridas por balas de borracha e gás lacrimogéneo, o número duplica. E os números não mentem nem brincam: são cerca de 1500 pessoas lixadas de um lado contra zero do outro.

A que se deveu este ataque? Não sabemos, não há qualquer explicação. A ordem dada às tropas não é conhecida, sabe-se apenas do louvor de Netanyahu, que diz que os seus soldados cumpriram o que tinham a cumprir. E o que era? Mais uma vez, não sabemos, mas sabemos que o mesmo Netanyahu diz que “Israel age vigorosamente com determinação para proteger a sua soberania e a segurança dos seus cidadãos”. A expressão “proteger a soberania”, no caso mais escandaloso de colonialismo no mundo, perante a inominável catástrofe, a inominável brutalidade que é Gaza, parece provocação, e provocação tão clara que só se compreende se vier de uma voz que se sente impune e triunfante.

Já Avigdor Lieberman, Ministro da Defesa de Israel, diz que os soldados israelitas merecem uma medalha e que os militares, coitadinhos, se limitaram a disparar contra os manifestantes que carregaram contra a cerca de segurança da fronteira.

E se assim tivesse sido? Se, de facto, os palestinianos o tivessem feito? A que propósito teria o estado de Israel o direito de tirar vidas - mais vidas - de quem encarcerou em Gaza? É que quando se diz que cerca de dois milhões de palestinianos estão presos na Faixa de Gaza não se brinca: estão literalmente presos, não podem sair, estão confinados a 40 quilómetros de comprimento por entre seis a dez de largura, a tal “cerca de segurança” é o que define os limites geográficos - no mundo inteiro - por onde podem movimentar-se. E o mundo assiste a isto impassível, a ONU faz as suas exigências, mas Netanyahu diz que não lhe apetece levá-las a sério, e portanto não as leva e o regabofe continua. Naquela zona do globo, Israel é o rei do pedaço, o resto do mundo que assista sem meter o nariz e no final que aperte a mão aos líderes brancos, fato e gravata, aqui vai disto, o Estado judaico continua.

Estamos no cúmulo de Israel dizer que não irá tolerar manifestações junto à sua fronteira - note-se a ironia - e que o que os palestinianos estão a fazer são atos terroristas disfarçados de protestos. Talvez se batermos muito à semântica consigamos mudar o significado das palavras.

Estamos a falar de um povo a ser dizimado e espezinhado por outro, de um caso de fanatismo e racismo sem precedentes, de um nacionalismo brutal que prossegue a cavalgada rumo à extinção da Palestina. Quem lá vai sabe que os protestos dos palestinianos não poderão fazer milagres: palavras não combatem armas. A canção revolucionária e/ou de esperança não servirá de nada perante quem leva granadas na lapela. E por isso não se compreende que a comunidade internacional não intervenha. Não se compreende que isto seja possível hoje, em Abril de 2018, quando a Internet está em todo o lado e as partes do mundo podem informar-se e convocar-se. 

Mas a ONU e a União Europeia preferem uma intervenção light, pedir, todas submissas, a Israel que só use “força letal em último recurso”. Com esta brandura, são cúmplices destes crimes. Israel não descolonizará de bom grado, a impassividade internacional leva-o a crer que a impunidade existe. Não dá para olhar para a brutalidade e pedir moderação, não querer intervir a sério é permitir que isto tenha braços, pernas, armas.

Poupar-me-ão, espero, a acusações de anti-semitismo. A estratégia do Estado de Israel passa por instrumentalizar o Holocausto e, através da acusação, deslegitimar quem se lhe opõe. Cabe ao resto do mundo não cair na cantiga, fazer o que lhe compete, munir-se de empatia e boicotar o Estado de Israel.

Podcast: https://www.esquerda.net/audio/palestina-comunidade-internacional-anda-dormir