Sair da Palestina sem passaporte

À saída de Ramallah (Palestina), em direcção a Jerusalém (“Israel”), apercebo-me de que não tenho comigo o passaporte. Aliás, nem passaporte nem cartão de cidadão nem um do ginásio, nada que me identifique. Entretanto, os palestinianos saem do ônibus, levam a bagagem. Terão de mostrar o documento de permissão de entrada em Israel, identificação e bagagem.

Ficamos quatro ou cinco estrangeiros lá dentro. Entra uma miúda armada, gira, covinhas, um perigo, e um rapaz qualquer atrás. Pistolas, metralhadoras, lança-granadas, o pão deles de cada dia. Olha para mim, branca e relaxada. “Are you a tourist?”, pergunta, sorrindo. Digo que me esqueci do passaporte em Jerusalém. “This is a checkpoint.” [Já reparei.] Pergunta-me o nome, digo só “Ana Bárbara”, em que dia cheguei, de que país sou. Diz alguma coisa em hebraico, dão o aval do walkie-talkie. Nem tive de repetir o nome nem tive de escrevê-lo. Rápida verificação de uns minutos e estou livre. Sorri de novo, com complacência. Turista estúpida? E umas covinhas de fazer rodar o mundo.

Os palestinianos lá estão a ser tratados como criminosos e o ônibus fica ali à espera dele. A minha bagagem de não-palestiniana nem sequer foi verificada, se calhar encontrei a fórmula para se levar ------ para Israel.

E os nojos maiores são estes: a hierarquia ali escancarada, a banalidade com que o mal é posto em causa. Estávamos à espera de brutamontes de olhar cruel? É também pelas mãos de uma miúda giro que isto anda.