Sair de Tel-Aviv depois de uma enxurrada de perguntas

No centro de Jerusalém, pego o ônibus para o aeroporto de Tel-Aviv. Uns quilómetros adiante, saio na paragem errada, tenho uns quilómetros pela frente. Chuva desalmada a espancar o chão e a mim, humor magnífico.

Graças à corrida, chego ao aeroporto atrasadíssima, o corpo como se num lago. Tento ir para a verificação de bagagens, mas sou interrogada antes. Tento escapar a essa fila, não tenho como, e lá me vou pôr a responder: nome, por que fui à Malásia, com quem, se tenho lá família e amigos. O mesmo para Marrocos: por que fui, quantas vezes, com quem. Calha-me mal, passei lá uma semana em 2017, é essa que refiro. Perguntam-me se foi a única vez que lá estive, digo que sim. Esqueço-me de uma escala feita em 2016, de uma noite, e vem mais uma enxurrada de perguntas. E se te metesses na tua vida?

A festa segue: perguntas sobre todos os carimbos, o que vi na Malásia, o que quis de Israel [nada, eu quis vir à Palestina], porquê. Como se chamam os meus pais? Onde fica Guimarães? Com quem é que fui a Marraquexe? Mas que raio é que tu tens a ver com isso?

“What happened to your passport?” “Nothing.” “It's wet.” “It's raining.” Grande idiota, e eu encharcada até ao ossos, com os pés dentro de um lago. Estás a gozar comigo? Claro que, depois disto, faltam cinco minutos para o embarque.

Vou ter com os seguranças (soldados?), peço-lhes para passar à frente. Passeiam-me entre as várias entradas, muito calmamente, verificam-me o raio da bagagem cinco vezes, procuram-me sabe deus o quê no corpo. No final, demorou mais do que se tivesse ido para a fila. Estou com vontade de dar tiros. Por pura sorte, não perco o avião.