Victor Heringer: roubar a ternura à lassidão dos dias

Victor Heringer morreu ontem, aos 29 anos, no Rio de Janeiro. Imagino que pouco público português saiba de quem falo. Ainda que finalista do Prémio Oceanos, que pode ser dado a qualquer autor em língua portuguesa, Heringer não foi publicado em Portugal. Li-o há uns meses, e pela primeira vez, num voo São Paulo-Madrid, na última vez que fui ao Brasil.

Estávamos em Novembro de 2016 quando pela primeira ouvi falar de Heringer. Um caso de precocidade, brilho, uma revelação em língua portuguesa. Fui ao Google, não gostei. Só era dois anos mais velho do que eu, e gente assim tão nova não devia ter o direito de provocar aquele efeito. Mas enfim, o fascínio impulsiona a vontade e quando, em Junho de 2017, me meti no avião para ir ao Brasil, já sabia que compraria “O amor dos homens avulsos”.

Morre-se demasiado nas páginas dos jornais, e a morte de quem não nos passa directamente pela vida só muito dificilmente nos deixa atordoados. Afinal, depois daquelas horas que passámos a sobrevoar o Atlântico, quem seria o autor para mim? Um nome, um vulto? Pouco, nada que me mudasse a vida, escritores há muitos, desconhecidos mais ainda. Mas a verdade é que a morte dele me caiu ontem como um soco. Talvez fosse por ter quase a minha idade, ou por já ser assumido como a certeza de livros escritos e uma literatura às costas.

Dos que escreveu, o livro que mencionei foi o único que li. Li várias críticas, a este livro e a outros, por curiosidade dos primeiros passos, porque vi, desde a primeira página, que podíamos ter ali um autor para a vida toda. Li entrevistas que lhe foram feitas, adicionei-o no Facebook, há uma semana li as frases que lá pôs, dizendo que ouvira dizer que alguém circulava pelo Rio vestindo uma camiseta com a estampa da capa do seu livro. Quis tê-lo debaixo de olho.

Será sempre cruel dizer que alguém é bom para a idade, porque isso o expulsa do quadro maior, mas é que naquele livro era precisamente isso que encantava. Não era só o livro, era a certeza dos outros que viriam, do que aquele domínio estilístico faria quando maturasse ainda mais. Para onde iria a sua literatura? Que grandes obras sairiam? Deve ser apaziguante ter 26 anos e já ser a certeza do futuro da linguagem literária em língua portuguesa.

Em entrevista à Globo, aquando do lançamento de “O amor dos tempos avulsos”, Heringer falou da ternura como estratégia narrativa: “Eu, que antes buscava a saída pela ironia distanciada, pela teoria seca ou pela indignação paralisante, resolvi que a ternura pode ter uma potência também.” Usar a ternura como arma, em tempos em que o líquido é valorizado, sem ceder à lamechice, ao delicocoiso, é o escudo que nos safa do cinismo. Aliás, já escrevia José Mauro Vasconcelos, ao finalizar o terno e bruto “O Meu Pé de Laranja Lima”, que “A vida sem ternura não é lá grande coisa”. Foi dele que me lembrei em cima do Atlântico.

Custa a creditar. O talento em força bruta, a juventude, a morte de um génio precoce, décadas que ficaram por viver, livros que nunca serão escritos, vida que não teve tempo de acompanhar, encher a técnica, que vazio fica em tudo.

[Publicado originalmente no Esquerda.net]