Quando o romance que escrevo parece vencer-me pela exaustão, tento dar-lhe as voltas possíveis para não morrer a meio. Talvez o texto esteja gasto, talvez seja eu quem o está, talvez isto não tenha pés nem cabeça. Esta página foi criada para registar os passos desta narrativa longa, atirar dúvidas, expurgá-las, enfrentá-las, partilhar excertos.

O problema é definir uma história numa altura da vida e precisar de anos dela para concluí-la. O que se passa entretanto molda tudo: há mais episódios, o mundo abre-se, agita e muda e eu também. Quanto mais vivo, mais quero dissecar, mesmo que as acções não pareçam enquadrar-se no mapa que fiz para a narrativa. Devia conseguir mantê-la incólume, resistir aos atropelos de tudo o que me rodeia, mas não dá para não querer incluir mais. Terei aqui uma boneca de trapos? Que inveja dos velhos para quem já tudo aconteceu.

Daqui a três anos, chegarei aos trinta, já não terei o luxo de ainda poder ser potencial. Pode ser que isto corra bem e, se assim for, até poderei dizer que este buraco de angústias nunca teve qualquer dúvida. Werther, pois então, só por ser intenso, e porque é um colete amarelo e uma sobrecasaca azul que o que ando a escrever debate.

Ana Bárbara Pedrosa